domingo, 17 de outubro de 2010

As religiões e as políticas, por Ivone Gebara

As religiões e as políticas
Revista digital Tempo e Presença – outubro de 2010)

Em períodos eleitorais, além dos programas dos diferentes candidatos apresentando suas idéias e futuras ações, nosso país se vê às voltas com a problemática das crenças religiosas misturadas às posturas éticas e políticas dos candidatos e dos eleitores. Poucas pessoas fazem uma análise na qual a atenção às propostas políticas dos candidatos seja submetida ao bem comum e às condições reais de possibilidade histórica de suas propostas. Igualmente, poucos conseguem distinguir aquilo que tem a ver com suas escolhas pessoais de vida e as grandes linhas políticas necessárias a um país e, por conseguinte a um Estado multicultural e multireligioso como o nosso. Misturam-se os diferentes planos e predomina uma Babel onde cada um grita mais alto e ninguém se entende.
Escrevo sobre religiões e políticas apoiada não apenas na leitura de algumas publicações de jornais que representam as classes ricas detentoras do capital e da escuta dos discursos de alguns candidatos, mas também a partir de conversas com moradores de alguns bairros populares, todos eleitores.
Sabemos que em geral, para os ricos, as escolhas políticas têm a ver com a manutenção de seus interesses individuais. Para os pobres têm a ver com os benefícios que as políticas atuais lhes proporcionaram. Mas, de ambos os lados, é preciso não esquecer da emoção ou da relação pessoal com o candidato ou com o amigo do candidato ou com o pastor ou o padre ou o patrão que parecem orientar muitas das escolhas. Nesse nível a visão política parece reduzir-se a uma dimensão muito pequena e, muitas vezes, é a partir dela que fazemos julgamentos, escolhemos e tomamos posições algumas vezes acertadas, mas também muitas vezes equivocadas.
Impressionou-me nas últimas eleições de outubro a atuação de alguns grupos religiosos que foram e estão sendo capazes de espalhar confusão, fanatismo e insegurança em muitos eleitores. Aparecendo ao público como conhecedores da vontade de Deus e seus defensores ferrenhos atrevem-se a manipular a razão e a emoção popular em favor de seus próprios candidatos a diferentes cargos políticos. Fazendo apelo à vontade de Deus ou à Bíblia ou aos princípios cristãos de respeito à vida criaram uma espécie de superestrutura acima das decisões que cabem unicamente a cada indivíduo. Reduzem “a vida” a um conceito limitado as suas próprias posições. É como se pretendessem conhecer à vontade de Deus, do mistério que envolve e atravessa nossas vidas e se tornassem os guias de uma multidão de cegos. Aliás, eles adoram que o povo continue cego e dependente para que seu poder continue imperando.
Infelizmente ainda vivemos em estruturas culturais hierárquicas e antidemocráticas que atribuem ao clero das mais diferentes procedências um saber e um poder acima do comum dos mortais. Crêem-se representantes e enviados de Deus para orientar e decidir no lugar do povo. E, às vezes, de forma escandalosa, usam desse poder para manipular as consciências e indiretamente espalhar mentiras e ódio entre as pessoas. É hora de acordarmos para nossa condição comum de mortais! É hora de não só falar em democracia para os outros, mas de vivê-la nas instituições da religião! É hora de sair do obscurantismo e ser capaz de pensar a vida de forma mais abrangente.
O que está em questão para muitos não é a moralidade política em sentido amplo ou a justiça nas instituições sociais e políticas, mas questões que têm a ver com o foro interno das pessoas. Argumentos como: “essa candidata é muito religiosa” ou “essa parece que não crê em Deus” ou essa “é a favor da dignidade da família” ou “essa é a favor das uniões homossexuais e do aborto” ou “esse é um fervoroso cristão” ou “esse é 100% Jesus” parecem ter determinado o comportamento eleitoral de um bom número de pessoas. Digo bem, comportamento eleitoral, visto que a maioria das pessoas de nosso país, e neles sublinho o voto das camadas mais abastadas, está longe de assumir um comportamento político. Comportamento político é aquele a partir do qual estamos sendo continuamente educados a discutir o bem da polis, o bem da cidade, o bem do país, o bem dos mais necessitados, muitas vezes, para além de nossos interesses individuais ou grupais. Há uma confusão bastante grande entre uma dimensão de ética individual e a ética da cidade no sentido amplo das instituições públicas. Por exemplo, posso pessoalmente não ser a favor do casamento homossexual, ou do aborto, ou da liberação das drogas ou de outras tantas coisas que discutimos no dia a dia de nossa vida. Minha postura pode até ser justificada por princípios religiosos, mas não posso legislar a cidade a partir de minhas crenças religiosas cristãs individuais, sobretudo num país multireligioso que se afirma leigo por Constituição.
A cidade ou o país são maiores do que minhas crenças e minhas decisões pessoais, muito embora eu não abra mão delas. Aliás, este é um direito que me assiste, mas esse direito deve ser o direito de todas as pessoas nas suas diferentes situações e pertenças. Posso, por exemplo, por minha crença religiosa achar necessário me privar de carne de porco, mas não posso estabelecer como regra geral que todas as pessoas devam fazer o mesmo. Posso não trabalhar no sábado ou no domingo por convicção religiosa, mas não posso obrigar todas as pessoas que o façam. As leis religiosas não são leis do Estado, mas as Leis do Estado são para todos, visto que tocam a convivência geral de todos os grupos do país.
A cidade ou o país são sempre maiores porque neles se incluem pessoas diversas, ideologias e crenças plurais, assim como instituições de diferentes correntes políticas ou religiosas. Por isso, não posso impor ao todo as referências de minhas crenças privadas por melhores que sejam para mim, para minha família ou para minha comunidade. Não posso usá-las para fazer pressão eleitoral e política. Da mesma forma, o todo não pode impor que eu faça aquilo que violenta minhas convicções. Por exemplo, posso por convicção não querer o casamento homossexual ou a descriminalização e legalização do aborto. Ninguém pode me obrigar a assumi-los como conduta pessoal. Mas igualmente, não posso fazer uma campanha em nome de minha fé para que se aprove uma legislação apenas concorde com minhas convicções religiosas. É fundamental acolher a existência de problemas sociais ou problemas de saúde pública que independem diretamente das crenças religiosas. E diante desses problemas cabe ao Estado legislar em vista do bem da população. As instituições religiosas não podem impedir que o Estado cumpra suas obrigações em relação às pessoas que têm problemas diferentes dos meus. Não podem usar as crenças religiosas como caminhos válidos para todos os cidadãos e cidadãs e manipular as pessoas usando o nome de Deus. Esse é o grande equivoco que se nota em muitos grupos religiosos e particularmente em seus representantes. Com má fé ou ingenuidade doentia confundem o pessoal com o coletivo, misturam o foro interno com a orientação ética coletiva, mesclam sua religião pessoal com os interesses dos cidadãos de todo o país. E mais, muitas vezes colocam as convicções religiosas como formas acríticas e ahistóricas de vida e até impossibilitam qualquer diálogo à luz de uma hermenêutica histórica que leve em conta a complexidade de cada contexto e situação. É como se essas convicções existissem num mundo para além do nosso e que fossem ditadas por seu Deus de forma completamente ahistórica para todos e para sempre.
Viver num país e num Estado democrático e plural significa ter políticas e leis que favoreçam ao conjunto das cidadãs e dos cidadãos. E dentre elas, leis que garantem a convivência do conjunto. Por isso, mais uma vez, posso não aderir a algumas leis por convicções pessoais, mas, não posso negar o direito e o dever do Estado de promulgá-las em vista do bem comum.
Sem dúvida, as distinções são mais fáceis no plano teórico do que na prática cotidiana. Mas, o fato é que não estamos sendo educados através das diferentes instituições que criamos e dos meios de comunicação social a distinguir os diferentes níveis de nossas vivências, de nossas crenças e de nossas ideologias políticas ou religiosas. Reduzimos o mundo à nossa maneira de ver como se fôssemos os donos de uma verdade que deveria ser a mesma para todos. Manipulamos informações, mentimos, excluímos pessoas, desrespeitamos as leis sempre a favor de interesses dos grupos dominantes ou de nosso grupo.
O tempo em que o Cristianismo, através de seu modelo hierárquico imperial se confundia com os impérios desse mundo já faz parte do passado, muito embora ainda muitos busquem a continuidade desse modelo. Cada vez mais as instituições da religião não podem impor-se à consciência dos indivíduos e nem forçar o Estado a legislar a partir de posturas anacrônicas para os dias de hoje. Esta postura não é negação das religiões, mas o reconhecimento de seu novo lugar social num mundo plural.
Nesse sentido é urgente que as diferentes religiões e particularmente igrejas cristãs assumam a responsabilidade social de nosso tempo, ou seja, a responsabilidade de não repetir modelos de ingerência religiosa no Estado ou na vida dos fiéis sob a alegação de que seus funcionários são munidos de um saber acima do comum dos fiéis. Da mesma forma como um Estado democrático não pode interferir nas crenças e nas práticas religiosas de nenhuma instituição enquanto estas não estiverem violando a vida de seus membros, da mesma forma as igrejas ou as instituições religiosas não podem reduzir o Estado à suas próprias convicções.
Nessa linha também os políticos, os candidatos e os chefes de Estado não devem ceder aos pretensos donos da religião motivados pelo medo de perder votos ou perder prestígio político. Devem sim discutir com veemência e reafirmar a divisão e autonomia de poderes presentes num Estado laico. Esta é a responsabilidade dos governantes e dos legisladores. Fugir dela é trair o pluralismo do tecido social e desrespeitar os limites que se impõe a uma convivência social sadia que leva em conta as diferenças e é afirmada por nossa Carta Magna.
Do ponto de vista da tradição cristã não podemos esquecer que Jesus já pressentia essa poderosa tentação clerical no meio de seus discípulos e por isso insistia para que fossem servidores uns dos outros e para que não reproduzissem os mesmos modelos de competição e disputa que se verificam entre os poderosos desse mundo. Não apenas isso, Jesus intuía a importância de deixar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Numa interpretação contemporânea dessa tradição poderíamos dizer que César é o Estado, são os governos que devem governar em vista do bem de todos os cidadãos e cidadãs, e independentemente de suas crenças religiosas. O que é de Deus é nossa intimidade, nossa consciência pessoal, nossas crenças, nossas formas de culto, nossa diversidade respeitada, nossa necessidade de consolo, o cultivo das práticas de amor e ajuda mútua...
Cada um de nós tem de certa forma sua própria divindade e pode se equivocar identificando-a verdade que se quer impor para toda a coletividade. Cada um pode pensar que seu jeito de viver deve ser o jeito de todos. Estamos sempre sujeitos à tentação de Narciso olhando-se nas águas claras e apaixonando-se pelo reflexo de sua beleza. Analogicamente algumas instituições da religião crêem ter o melhor saber sobre os valores humanos e acabam afogando os fiéis nos dogmatismos narcisistas excludentes e destruidores da comum dignidade humana.
Há que vigiar para não cair na tentação da prepotência ou dos que sempre estão prontos a atirar a primeira pedra naquelas e naqueles que vivem de forma diferente da sua.
Políticas e religiões são nossa criação em vista de nosso bem, do bem da coletividade humana e das diversas formas de vida que conosco partilham do mesmo sopro vital. Por isso não podem ser absolutos e nem podem escravizar-nos a elas. O vento da liberdade sopra onde quer e ninguém pode ser seu proprietário exclusivo.

Ivone Gebara
Outubro 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sobre a profissão de nutricionista

O PROFISSIONAL DE NUTRIÇÃO

Por Patrícia Moreira, professora do Departamento de Nutrição, CCS, UFPB

O nutricionista é um profissional de saúde. Para exercer a profissão, este deve ter diploma expedido por escolas de graduação em Nutrição, oficiais ou reconhecidas, devidamente registradas no órgão competente do Ministério da Educação; deve ainda estar regularmente inscrito no Conselho Regional de Nutricionistas (CRN) da sua respectiva jurisdição (CFN, 2009).

A justificativa social para a formação do nutricionista respalda-se na necessidade do atendimento aos problemas de saúde, alimentação e nutrição humana, por isso o perfil desejado, contempla: nutricionista, com formação generalista, humanista e crítica, capacitado a atuar visando à segurança alimentar e atenção dietética em todas as áreas do conhecimento em que a alimentação e a nutrição se apresentem como aspectos fundamentais para a promoção, manutenção e recuperação da saúde de indivíduos ou grupos populacionais, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida, pautado em princípios éticos, com reflexão sobre a realidade econômica, política, social e cultural (CONSEPE, 2007).

A Resolução CFN nº 380 (CFN, 2005), estabelece as áreas de atuação do nutricionista, que são: Alimentação Coletiva: 1) Unidade de Alimentação e Nutrição (UAN): Alimentação Escolar e Alimentação do Trabalhador. 2) Nutrição Clínica: hospitais, clínicas em geral, clínicas em hemodiálises, instituições de longa permanência para idosos e spa; ambulatórios; banco de leite humano (BLH); lactários/centrais de terapia nutricional; atendimento domiciliar. 3) Saúde Coletiva: políticas e programas institucionais; atenção básica em saúde; vigilância em saúde. 4) Docência: ensino, pesquisa e extensão (graduação e pós-graduação) e coordenação de cursos. 5) Indústria de Alimentos: desenvolvimento de produtos. 6) Nutrição em Esportes: clubes esportivos; academias e similares. 7) Marketing de Alimentos e Nutrição.

Com isso, os objetivos do Curso de Graduação em Nutrição da Universidade Federal da Paraíba definidos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), são:

* Formar o nutricionista, com referencial teórico, capacidade técnica com percepção crítica da realidade social, econômica, cultural e política, sendo hábil a atuar na área de alimentação e nutrição de forma a promover, preservar e recuperar a saúde de indivíduos e grupos populacionais, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida;
* Formar profissionais que contemplem as necessidades sociais da saúde com ênfase nos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde;
* Aplicar conhecimentos sobre a composição, propriedades e transformação dos alimentos e aproveitamento de seus componentes no organismo humano;
* Diagnosticar, intervir e monitorar o estado nutricional de indivíduos e grupos populacionais;
* Atuar na área de nutrição clínica exercendo atividades de intervenção dietoterápica, em caráter preventivo e terapêutico;
* Planejar e gerir atividades em alimentação e nutrição voltadas à melhoria das condições nutricionais de populações;
* Avaliar e intervir no processo sócio-cultural, político e econômico, de modo a influenciar na disponibilidade, acesso e aquisição de alimentos pela população em geral;
* Descrever e intervir no perfil epidemiológico dos agravos à saúde e bem-estar humano relacionados com a nutrição;
* Atuar nas políticas e nos programas de educação e vigilância nutricional, alimentar e sanitária visando à promoção da saúde em âmbito local, regional e/ou nacional;
* Integrar as equipes multiprofissionais destinadas a planejar, coordenar, implantar, executar e avaliar atividades relacionadas com alimentação e nutrição;
* Contribuir na formulação de novos produtos alimentícios a partir de matérias-primas convencionais ou alternativas;
* Planejar e executar ações de promoção e avaliação da qualidade de alimentos em sua área de competência;

* Desenvolver o ensino, a pesquisa e extensão em sua área de atuação;
* Desenvolver atividades de auditoria, assessoria, consultoria e marketing na sua área de atuação;
* Direcionar a prática profissional ao interesse social, à cidadania e à ética (CONSEPE, 2007).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Depressão versus ganho de peso

Estudo associa depressão ao ganho de peso mais rápido

A depressão pode trazer mais do que apenas a angústia mental, tendo influência no desenvolvimento da obesidade, principalmente com o acúmulo de gordura na região abdominal, segundo estudo publicado no American Journal of Public Health. Por isso, de acordo com pesquisadores da Universidade do Alabama, o tratamento da depressão pode ajudar a controlar a obesidade. Avaliando dados de mais de 4 mil adultos, colhidos em cinco ocasiões - início do estudo, e cinco, dez, 15 e 20 anos depois -, os especialistas observaram que aqueles que relatavam altos níveis de depressão tinham um aumento mais rápido da obesidade abdominal e da obesidade total (IMC), comparados aos participantes com menos sintomas depressivos. Além disso, já no quinto ano de estudo, a circunferência da cintura dos deprimidos era muito maior do que dos outros participantes. Entretanto, de acordo com os autores, o excesso de peso no início da pesquisa pareceu não alterar os riscos de depressão. “Descobrimos que todos ganharam peso no período de 15 anos que examinamos. No entanto, as pessoas que iniciaram relatando altos níveis de depressão aumentaram em obesidade abdominal e índice de massa corporal em uma taxa mais rápida do que aqueles que relatavam menos sintomas de depressão no quinto ano”, concluíram os pesquisadores.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ingestão de grãos e farelo ligado a menor mortalidade em mulheres diabéticas


Autora: Dr. Laurie Barclay

Ingestão de grãos e farelo estão ligadas a uma menor taxa de mortalidade em mulheres com diabetes tipo 2, de acordo com os resultados de um estudo relatado online na Circulation.

"Esse é o primeiro estudo do meu conhecimento sobre grãos e seus componentes e o risco de morte em pacientes com diabetes," disse o autor sênior Lu Qi, da Harvard Medical School e Harvard School of Public Health em Boston, Massachusetts, em um release de notícias.

"Pacientes com diabetes enfrentam de 2 a 3 vezes o risco de doença cardiovascular e morte prematura comparada à população geral."

Como parte do Nurses' Health Study, 7822 mulheres americanas com diabetes mellitus tipo 2 completaram questionários regularmente administrados avaliando as ingestões dietéticas e potenciais confundidores.

Durante o seguimento que durou até 26 anos, ocorreram 852 mortes de causas gerais e 295 mortes cardiovasculares.

Comparados com os quintis mais baixos de grãos, fibra cereal, farelo, e gérmen, os quintis mais altos foram associados com uma taxa de mortalidade de causas gerais de 16% a 31% mais baixa, após o ajuste para idade.

Contudo, apenas a associação com a ingestão de farelo permaneceu significante após ajuste para estilo de vida e fatores de risco dietéticos (P para tendência = 0,01).

Através dos quintis de ingestão de farelo, os riscos relativos multivariáveis foram 1,0 (referencia), 0,94 (95% intervalo de confiança [IC], 0,75 – 1,18), 0,80 (95% IC, 0,64 – 1,01), 0,82 (95% IC, 0,65 – 1,04), e 0,72 (95% IC, 0,56 – 0,92).

Ingestão de farelo foi também inversamente associado com mortalidade cardiovascular com riscos relativos através de quintis de ingestão de farelo sendo 1,0 (referencia), 0,95 (95% IC, 0,66 – 1,38), 0,80 (95% IC, 0,55 – 1,16), 0,76 (95% IC, 0,51 – 1,14), e 0,65 (95% IC, 0,43 – 0,99; P para tendência= 0,04).

Para farelo adicionado sozinho, os achados foram similares.

"Esses achados sugerem um benefício potencial de grãos, e particularmente farelo, na redução da morte e risco cardiovascular em pacientes diabéticos," disse o Dr. Qi.

Limitações desse estudo incluíram confundidores, possivelmente não controlados e não medidos, medida do erro de avaliação na ingestão dietética, poder insuficiente para detectar associações modestas, e falta de generalização para homens e grupos étnicos não brancos.

"Acredita-se que diabetes é um estado crônico de inflamação caracterizado por níveis moderadamente aumentados de marcadores químicos para inflamação e disfunção endotelial," Dr. Qi conclui.

"Encontrou-se que aqueles marcadores são relacionados ao risco aumentado de doença cardiovascular nas populações diabéticas e não diabéticas.

Em nossos estudos prévios, nós relatamos que a ingestão de grãos e subcomponentes como fibra cereal pode diminuir esses marcadores em pacientes diabéticos."


Fonte: Circulation. Published online May 10, 2010.
http://www.medcenter.com/Medscape/content.aspx?bpid=14&id=27865&__akacao=321357&__akcnt=acd0802f&__akvkey=bebe&utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=GERAL+132+BR&langtype=1046

domingo, 12 de setembro de 2010

Mudanças no perfil do estado nutricional do povo brasileiro

Morrer pela boca, a sina

Rodrigo Martins

Nação de famintos é coisa do passado. O Brasil agora disputa a liderança nos rankings de obesidade

Em 11 de maio, o colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo, sentiu-se na obrigação de defender as mulheres cariocas. Lembrou o episódio em que o correspondente Larry Rohter, do New York Times, as chamou de “gordinhas” e lamentou a repetição da descortesia recentemente, desta vez pelo diário francês Direct Matin Plus, que teria afirmado que “as mulheres de corpos esculturais sumiram das praias cariocas”, e a razão do fenômeno seria “a crescente obesidade e a falta de exercícios da população feminina local”. Talvez para agradar a seus leitores (e leitoras), Ancelmo partiu para o ataque: “Ou este jornal francês não frequenta as praias do Rio ou não entende de mulher”.

Não convém discutir as formas de quem vive pelas praias, mas é fato, garantem os especialistas, que a população brasileira, e não apenas a carioca, vive uma epidemia de obesidade. O Ministério da Saúde está prestes a divulgar dois grandes levantamentos sobre o tema. Um deles é o bloco temático de obesidade e hábitos alimentares do Vigitel 2009, uma pesquisa telefônica feita nas 26 capitais brasileiras mais o Distrito Federal para monitorar a frequência de fatores de risco à saúde da população. Os resultados do estudo devem ser apresentados nas próximas semanas. O outro levantamento, mais complexo, é o inquérito nacional de obesidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apresentará, em agosto, os resultados de uma pesquisa realizada entre 2008 e 2009.
Os responsáveis pelos estudos não estão autorizados a antecipar dados antes da publicação oficial. Mas, a julgar pela tendência apontada nos levantamentos mais recentes e observada por quem estuda o assunto, o cenário não é promissor. Há, inclusive, quem aposte que o País pode, em uma década, chegar aos mesmos padrões de obesidade dos Estados Unidos, onde três quartos da população adulta têm excesso de peso e 25% são considerados gordos. “Basta analisar o assustador crescimento da obesidade em crianças e adolescentes para verificar que o Brasil realmente pode atingir esses patamares se nada for feito para reverter o processo”, alerta o médico endocrinologista Márcio Mancini, responsável pelo grupo de combate à obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Em 2003, no último inquérito nacional feito pelo IBGE, 41% dos homens e 39,2% das mulheres estavam com excesso de peso no Brasil. Além disso, 8,8% dos homens e 12,7% das mulheres eram obesos. Esses indicadores já são preocupantes. Mas seria possível, em tão pouco tempo, dobrar ou triplicar esses índices, a ponto de o Brasil atingir os patamares de obesidade americanos? “A hipótese não é alarmista, é real. Superamos as metas de combate à desnutrição e subnutrição, mas a população está engordando em ritmo acelerado”, afirma o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. “E os impactos já são sentidos no Sistema Único de Saúde (SUS), com o aumento dos custos para o tratamento de doenças crônicas associadas à obesidade, como hipertensão e diabetes.”
De acordo com o Ministério da Saúde, a proporção de brasileiros diagnosticados com hipertensão arterial cresceu de 21,5%, em 2006, para 24,4%, em 2009. Além disso, os técnicos da pasta identificaram uma tendência de aumento nas mortes por diabetes. Nos adultos de 20 a 74 anos, o risco de morte passou de 16,3 por 100 mil habitantes, em 1990, para 24 por 100 mil habitantes, em 2006. O custo para o tratamento dessas moléstias também não pára de crescer. “O Sistema Único de Saúde destina cerca de 600 milhões de reais apenas para as internações relativas à obesidade. Esse valor equivale a 12% do que o governo brasileiro despende anualmente com todas as outras doenças. Se forem levados em consideração ainda os gastos indiretos (faltas ao trabalho, licenças médicas e morte precoce), estima-se que esse valor seja mais que o dobro”, diz a médica Leila Araújo, professora da Universidade Federal da Bahia e pesquisadora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso).

O Brasil está passando por um processo que os especialistas chamam de “transição nutricional”. Em 1974, 5,7% da população brasileira era considerada obesa e 8,6% era vítima da desnutrição. Mas, em 1989, o cenário inverteu-se. A obesidade atingia 9,6% da população, enquanto a desnutrição caiu para 4,2% (a Organização Mundial da Saúde considera como aceitável uma taxa de desnutrição inferior a 5%). “Isso aconteceu porque a população mais pobre teve mais acesso aos alimentos. Mas, nas políticas públicas, essa informação parece não ter sido bem assimilada. Ainda resiste a ideia de que o Brasil é um país de famintos quando, na realidade, está se tornando um país de obesos”, afirma Mancini, do Hospital das Clínicas. “É louvável que o governo federal tenha lançado o programa Fome Zero para erradicar a desnutrição. Mas é necessário lançar um programa com a mesma visibilidade e magnitude para combater a obesidade. Percebo uma intensificação das campanhas de combate à hipertensão e ao diabetes. Mas o principal fator de risco, a obesidade, não está sendo devidamente combatido pelo poder público.”

A avaliação é compartilhada pela professora Elisabetta Recine, do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar da Universidade de Brasília (UnB). “As áreas de nutrição dos governos, tanto na esfera federal quanto na estadual e municipal, estão enfraquecidas e perdem recursos ano a ano”, afirma a especialista. “Há uma lógica que drena os recursos da saúde para a aquisição de tecnologia, equipamentos e fármacos. E as ações de prevenção e promoção da saúde ficam em segundo plano”.

Alguns números reforçam as críticas da nutricionista. A população brasileira consumiu, em 2009, quase 2 toneladas de sibutramina, um emagrecedor que atua como inibidor de apetite. Enquanto isso, a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (Pnan) dispõe de um orçamento anual de 38 milhões de reais. “É muito pouco, se levar em consideração os elevados custos para o tratamento de doenças associadas à obesidade. Além da hipertensão e do diabetes, diversos tipos de cardiopatias e câncer estão relacionados à má alimentação”, emenda Elisabetta.
Mas a coordenadora da Pnan, Ana Beatriz Vasconcelos, garante que o investimento público em prevenção é bem maior do que aparenta. “O combate à obesidade, para funcionar, deve ser uma articulação de diversas políticas, como estímulo à pratica de esportes, educação alimentar, merendas mais saudáveis nas escolas. Quem é alvo das campanhas de combate à hipertensão e ao diabetes, também recebe orientação nutricional e participa de programas para combater a obesidade. Trata-se de uma abordagem multisetorial, que consome recursos de muitas áreas.”
A epidemia de obesidade não é uma exclusividade nacional. Além dos Estados Unidos, recordista mundial, a maioria dos países da Europa Ocidental sofre com o aumento do número de habitantes com excesso de peso, que hoje representa de 40% a 50% da população. “Na América Latina, o México tem uma prevalência bem maior que a nossa, até porque abraçou os padrões de consumo do vizinho Estados Unidos. Mas esse crescimento da obesidade se verifica em quase todos os países emergentes, à exceção dos asiáticos, como China e Índia, mais resistentes ao tipo de alimentação dos ocidentais”, afirma o endocrinologista Bruno Geloneze Neto, do Laboratório de Investigação em Metabolismo e Diabetes da Unicamp. “A verdade é que todos os países estão perdendo o combate à obesidade e, em grande medida, isso se deve ao fato de as políticas públicas jogarem toda a responsabilidade sobre o indivíduo, visto como desleixado e descuidado por engordar, sem levar em conta os fatores genéticos e sociais que contribuem.”
Para Geloneze, a obesidade precisa ser vista como uma doença crônica, neuroquímica e marcada por recaídas. Ou seja, não adianta o paciente buscar soluções imediatas, como a dieta da moda, e depois voltar aos hábitos antigos. A aposentada Nilda Tocacelli Campos, de 73 anos, conhece bem essa história. Até os vinte e poucos anos foi uma mulher magra, mas, depois de engordar, nunca voltou a ter o peso ideal. “Trabalhava num escritório de contabilidade sentada o dia todo. Sempre adorei comer massas e doces. Nem por isso imagine que eu não me preocupava. Fiz regime a vida inteira, mas sempre que dava uma escapulida, voltava a engordar”. Hoje, Nilda controla a pressão com medicamentos e precisa de assistência médica para emagrecer. Iniciou o tratamento há nove anos, quando precisou fazer uma cirurgia ortopédica e estava gorda demais para o procedimento. “Tenho 1,69 metro e peso 86 quilos, o que é muito. Mas cheguei a pesar 99 quilos. Acostumei-me ao fato de que preciso moderar a alimentação todo santo dia, sem descanso

Além de tratar a obesidade como doença crônica, o endocrinologista Geloneze destaca que a ciência precisa se esmerar para encontrar as razões que levam as pessoas a comerem compulsivamente. “Pesquisadores da Unicamp estão prestes a publicar um estudo que mostra que a gordura ingerida pelas pessoas mata os neurônios que controlam a sensação de saciedade”, afirma. “Também é preciso ter cautela ao diferenciar os pacientes. Temos um banco de dados que mostra que 20% dos pacientes obesos têm metabolismo magro. Isto é, eles não concentram substâncias nocivas como colesterol e triglicérides no sangue, são pessoas saudáveis, apesar de todo o preconceito.”
A médica Sandra Villares, responsável pelo Ambulatório de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas, lembra ainda que há fatores genéticos que levam muitas pessoas a engordar. “Na literatura médica, há estudos que indicam que a genética está associada a 70% dos casos de obesidade”, afirma. “Mas convém dizer que, mesmo se a pessoa tiver uma predisposição a engordar, se ela mantiver uma alimentação adequada e não for sedentária, não será obesa. Nossos genes não tiveram tempo para mudar da década de 70 para os dias de hoje. E, no entanto, a população não pára de engordar. Por quê? Come demais, alimenta-se de forma errada, não pratica exercícios, às vezes até porque não tem como. Quem deixa a criança brincar na rua com uma violência dessas? E as mulheres que trabalham? Elas não têm tempo para cozinhar, preparam o que for mais rápido, normalmente uma fritura qualquer ou uma comida congelada.”
Os especialistas são unânimes em dizer que o principal foco das políticas de prevenção devem ser as crianças e adolescentes. Não apenas pelo crescimento vertiginoso da obesidade entre eles, independentemente da classe social (gráfico à página 28), mas também porque é muito mais difícil mudar os hábitos da população adulta. A estudante Fernanda Melo de Silva, de 15 anos, precisou de assistência médica para combater a obesidade. Iniciou um tratamento no Hospital das Clínicas paulistano em 2005, mais abandonou no ano seguinte. Só voltaria em busca de assistência em junho de 2008, quando pesava 93 quilos. Hoje, com 79 quilos e 1,63 metro de altura, mantém uma dieta balanceada, caminha todos os dias por 40 minutos e faz, duas vezes por semana, aulas de dança. “Eu adorava comer uma caixa de bombons enquanto assistia a um filme na tevê. Também ia pelo menos umas três vezes na semana ao McDonald’s. Agora, só posso ir uma vez por mês”, afirma.
Desde que voltou à dieta permanente, Fernanda mudou os hábitos de muitas pessoas. As amigas da escola abandonaram a cantina da escola com seus salgadinhos fritos e refrigerantes e passaram, como ela, a comer uma fruta ou um iogurte no intervalo das aulas. A mãe também aderiu ao estilo de vida. “Eu sempre fiz dieta na minha vida, mas assim que parava, voltava a engordar. Não posso mais me arriscar. Controlo minha hipertensão com remédios e tenho histórico de diabetes na família”, explica.
Para evitar a multiplicação de casos como a de Fernanda, que precisou de tratamento médico para combater a obesidade, a Anvisa está prestes a publicar uma portaria para regulamentar a publicidade de alimentos. A ideia é que os anúncios de produtos industrializados ricos em gordura, sal e açúcar tragam mensagens semelhantes às usadas em embalagens de cigarro para alertar a população sobre os riscos do consumo excessivo daquelas substâncias. “Pelo projeto original, também havia a intenção de proibir a publicidade desses alimentos em horários dedicados a programas infantis, mas os procuradores da Advocacia-Geral da União deram um parecer contrário à decisão, porque ela pode gerar uma avalanche de processos movidos pela indústria alimentícia e pelas agências de publicidade”, explica Maria José Delgado, gerente de monitoramento e fiscalização de propaganda da Anvisa.
Mesmo assim, caberá à diretoria colegiada da agência a decisão final. “Apesar da ameaça de judicialização, o órgão pode entender ser necessário colocar essa regra em vigor”, diz Maria José. Também está em discussão a venda casada de alimentos e bebidas com brindes e brinquedos. “Entendemos que a criança é muito vulnerável à propaganda e é preciso protegê-la de um modelo de consumo que pode trazer graves riscos à sua saúde”, completa. A portaria deve ser publicada até o fim do ano.
Outra iniciativa do Ministério da Saúde é negociar com as indústrias alimentícias a redução gradativa dos índices de gordura, sal e açúcar dos alimentos processados. Um dos compromissos assumidos pelas empresas é a redução dos índices de gordura trans, de forma gradual e até o fim de 2010, conforme os parâmetros recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que define um limite máximo de 2%. De acordo com Edmundo Klotz, presidente da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), o setor já estava atento a essas demandas e, em dezembro de 2008, “apresentou um estudo, conduzido em parceria com as suas associadas, que apontava consideráveis reduções nos teores de açúcar (29%), sódio (20%), gordura saturada (45%) e gordura trans (86%) em cinco anos.”
Os pactos firmados com a indústria não seduzem, porém, todos os especialistas. “O mais preocupante é o estímulo ao consumo exagerado de alimentos. Recentemente, constatamos num grupo de pacientes a redução do consumo de gordura e colesterol. Mas eles continuavam engordando, porque comiam demais, especialmente produtos industrializados de alto teor calórico, como bolachas recheadas e refrigerantes”, diz a médica Rosely Sichieri, do Instituto de Medicina Social da Uerj. “Para ter uma ideia, um pacote de bolachas recheadas contém cerca de mil calorias, que é quase a metade do total recomendado para um adulto. Coibir a publicidade desse tipo de produto às crianças e estimular o consumo de alimentos saudáveis é indispensável.”


Segundo a especialista, o Brasil precisa garantir condições para que a população tenha uma vida menos sedentária e uma alimentação melhor. “Não adianta só dizer não coma isso, não coma aquilo. E a população não ter acesso a frutas, legumes e verduras, seja porque esses produtos não chegam, seja porque o preço é proibitivo”, afirma Sichieri. “Alguns países nórdicos, como a Suécia e a Noruega, tiveram excelentes resultados ao subsidiar os alimentos saudáveis e impor taxas aos produtos industrializados de alto teor calórico e baixo teor nutritivo. Além de estimular, de fato, as pessoas a praticarem exercícios físicos, como pedalar até o trabalho. E olhe que faz um frio danado lá.”
O ministro Temporão garante que as ações de educação alimentar, em maior ou menor escala, estão sendo feitas nas escolas, unidades básicas de saúde e com os profissionais do programa Saúde da Família, que atende cerca de 90 milhões de brasileiros. Quanto aos subsídios para as comidas saudáveis e a taxação dos chamados alimentos porcarias, ou junk food, mostra-se reticente. “Ainda não entramos nessa discussão no ministério, mas é preciso ter cautela ao regular a publicidade ou impor sanções à indústria alimentícia”, afirma o ministro da Saúde. “Os alimentos estão numa situação bem diferente do cigarro. O tabaco traz danos à saúde em qualquer nível de consumo. No caso dos alimentos, só trarão danos se consumidos em excesso.”

Rodrigo Martins é repórter da revista CartaCapital há quatro anos. Trabalhou como editor assistente do portal UOL e já escreveu para as revistas Foco Economia e Negócios, Sustenta!,Ensino Superior e Revista da Cultura, entre outras publicações. Em 2008 foi um dos vencedores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.


Fonte: http://www.cartacapital.com.br/saude/morrer-pela-boca-a-sina

Entrevista com José Gomes Temporão, ministro da Saúde

Brasil, recordista de gordura
Rodrigo Martins

“A hipótese não é alarmista, é real”, alerta o ministro Jorge Gomes Temporão em entrevista à CartaCapital
O Brasil tem uma taxa de obesidade muito inferior a dos Estados Unidos e da maioria dos países europeus. Especialistas apostam, no entanto, que o País pode figurar entre os recordistas mundiais na próxima década. Seria uma avaliação exagerada? “A hipótese não é alarmista, é real”, afirma o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Em entrevista a CartaCapital, ele defende a regulamentação da publicidade de alimentos dirigida às crianças e a construção de acordos com a indústria para melhorar a qualidade dos produtos oferecidos à população.
CartaCapital: Especialistas afirmam que o Brasil, mantida a tendência atual, pode chegar, na próxima década, aos índices de obesidade verificados nos EUA. O senhor concorda com essa avaliação ou a considera alarmista?

José Gomes Temporão: A hipótese não é alarmista, é real. Superamos as metas de combate à desnutrição e subnutrição, mas a população está engordando em ritmo acelerado. Até porque aumentou o acesso e o consumo de alimentos. Além disso, o processo de urbanização induziu uma mudança de hábitos. As pessoas passaram a ficar mais tempo confinadas em casa, sem atividade física. Com a mulher cada vez mais presente no mercado de trabalho, existe a tendência de as pessoas comerem mais produtos industrializados e congelados. Enquanto isso, verifica-se uma queda acentuada no consumo de alimentos mais saudáveis, como o feijão nosso de cada dia. A última pesquisa de hábitos alimentares revela poucos avanços e muitos retrocessos. Caiu o consumo de carne gorda, mas aumentou bastante o de refrigerantes. O estudo indica ainda que apenas 30% da população ingere a quantidade ideal de frutas, verduras e legumes. E os impactos já são sentidos no Sistema Único de Saúde, com o aumento dos custos para tratamento de doenças crônicas associadas à obesidade, como hipertensão e diabetes.

CC: O que pode ser feito para reverter esse processo?

JGT: É preciso, por exemplo, intensificar o trabalho de educação alimentar, sobretudo nas escolas. Investimos para melhorar a qualidade das merendas, mas é preciso avançar mais. Muitas cidades aprovaram leis locais obrigando as cantinas de todas as escolas a oferecer uma alimentação mais saudável, o que é ótimo. A ideia é trabalhar desde cedo com as crianças, porque é muito mais difícil mudar hábitos da população adulta. Outra frente de batalha é discutir com as indústrias a melhora da qualidade dos produtos. Fechamos acordos que estabelecem prazos para a redução da quantidade de gordura, sal e açúcar nos alimentos industrializados. Mas mudar a lógica de estímulo ao consumo é tarefa delicada, porque contraria interesses da indústria.

CC: O senhor é favorável às propostas de impor restrições para a publicidade de alimentos dirigida a crianças e adolescentes?

JGT: Sim, sou favorável, principalmente nos programas infantis, porque há um estímulo ao consumo de produtos com alto teor calórico, e a obesidade infanto-juvenil tem crescido bastante. Essa discussão está concentrada na Anvisa, mas entendo ser necessário e urgente algum tipo de regulação, até para coibir determinadas práticas, como associar brindes e brinquedos ao consumo de alimentos. Só que o tema é delicado. Os alimentos estão numa situação bem diferente do cigarro, que também passou por esse processo de regulamentação. O tabaco traz danos à saúde em qualquer nível de consumo. No caso dos alimentos, só trarão danos se consumidos em excesso.

Rodrigo Martins é repórter da revista CartaCapital há quatro anos. Trabalhou como editor assistente do portal UOL e já escreveu para as revistas Foco Economia e Negócios, Sustenta!,Ensino Superior e Revista da Cultura, entre outras publicações. Em 2008 foi um dos vencedores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.
Fonte:http://www.cartacapital.com.br/saude/brasil-recordista-de-gordura

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A ingestão de vegetais com folhas verdes pode diminuir o risco para diabetes tipo 2

Autora: Dra. Laurie Barclay
Publicado em 08/20/2010

A ingestão de vegetais de folhas verdes pode diminuir o risco para diabetes tipo 2, de acordo com os resultados de uma revisão sistemática e meta-análise relatada na edição da BMJ.

"A alta ingestão de frutas e vegetais é associada a uma incidência reduzida de câncer e doença cardiovascular,“ escreve Patrice Carter, da University of Leicester, in Leicester, United Kingdom, e colaboradores.

"Diabetes é um fator de risco forte e independente para doença cardiovascular, e geralmente as condições existem em conjunto, dividindo fatores de risco modificáveis comuns.

Ainda não foram feitas conclusões firmes se o aumento de consume de frutas e vegetais pode diminuir o risco da diabetes tipo 2, dada a abundância de evidências em conflito dentro da literatura.”

Para determinar os efeitos independentes do consumo de frutas e vegetais na incidência da diabetes tipo 2, os pesquisadores pesquisaram no MEDLINE, EMBASE, CINAHL, British Nursing Index, e Cochrane Library por termos envolvendo diabetes, pré-diabetes, frutas e vegetais.

Eles também perguntaram aos especialistas sobre as opiniões e procuraram bibliografias de artigos. Critérios de inclusão foram os estudos coorte prospectivos com uma medida independente da ingestão de frutas, vegetais ou frutas e vegetais, bem como dados sobre a incidência de diabetes tipo 2.

Dos 6 estudos que se encaixam no critério de seleção, envolvendo um total de mais de 220.000 participantes, 4 estudos também deram dados separados sobre a ingestão de vegetais com folhas verdes.

Um maior consumo de vegetais de folha verde foi associada com 14% de redução no risco para diabetes tipo 2(hazard ratio [HR], 0,86; 95% intervalo de confiança [IC], 0,77 – 0,97; P = 0,01), embasado em estimativas resumidas.

O aumento da ingestão de vegetais, frutas ou frutas e vegetais combinados não reduziu significativamente o risco para diabetes tipo 2.

"O aumento da ingestão diária de vegetais de folhas verdes poderia reduzir significativamente o risco de diabetes tipo 2 e deveria ser mais investigada," escrevem os autores do estudo.

Limitações dessa meta-análise incluem dificuldades na determinação da ingestão de dieta, heterogeneidade significante entre os estudos incluídos, e fatores confundidores não relatados.

Além disso, apenas um pequeno número de estudos foram incluídos na metá-análise, que pode ter prevenido a detecção de um beneficio do consumo combinado de frutas e vegetais para a redução do risco de diabetes tipo 2.

"Nossos resultados suportam a evidência que alimentos e não componentes isolados como, por exemplo, antioxidantes são benéficos para a saúde”, concluem os autores do estudo.

“Resultados de vários estudos suplementares produziram resultados desapontadores para a prevenção da doença, em contraste com evidência epidemiológica.

Uma maior investigação é necessária para o entendimento dos mecanismos envolvidos na relação proposta entre vegetais de folhas verdes e o risco de diabetes tipo 2."

Em um editorial associado, Jim Mann, da University of Otago in Otago, Nova Zelandia, e Dagfinn Aune, do Imperial College London,, avisam que o aumento do consumo geral de frutas e vegetais deveria certamente incluir vegetais de folhas verdes.

"A meta-análise sugere que a adição de uma porção UK e meia (cerca de 120 g) diária de vegetais com folhas verdes (por exemplo, repolho, couve, brócolis, couve-flor, e espinafre) tem o potencial para reduzir o risco de diabetes em 14% independentemente de qualquer efeito de perda de peso," escrevem os Drs. Mann e Aune.

"Apesar de ser razoável chamar a atenção para os benefícios potenciais e vegetais de folhas verdes, que poderia ser incorporado como uma das cinco porções recomendadas de frutas e vegetais por dia, nós devemos ser cuidadosos a mensagem de aumento em geral da ingestão de frutas e vegetais não fique perdida em uma pletora de balas.

Os achados são também uma lembrança útil de que dar conselhos em relação à dieta dos pacientes pode ser tão benéfico, se não mais, do que prescrevendo drogas para pacientes em risco de doença crônica."

Fonte: http://www.medcenter.com/Medscape/content.aspx?bpid=120&id=27739&__akacao=310315&__akcnt=acd0802f&__akvkey=57ad&utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=GERAL+129+BR&langtype=1046