terça-feira, 8 de junho de 2010

"Seminário Nacional de Alimentação e Nutrição no SUS: PNAN 10 anos".

Informe Alimentação e Nutrição - CGPAN

Edição nº 1 - 08/06/2010

Começa na terça-feira o Seminário sobre a Política de Alimentação e Nutrição
De 08 a 10 de junho, Brasília será sede do "Seminário Nacional de Alimentação e Nutrição no SUS: PNAN 10 anos". Participarão autoridades, trabalhadores, gestores, usuários, prestadores de serviços, entidades, organizações, representantes dos Conselhos Estaduais de Saúde e de Segurança Alimentar e Nutricional e ainda especialistas em políticas públicas de alimentação e nutrição.

Com o tema "Dez anos da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN)", o objetivo do Seminário é avaliar a política, identificar avanços e propor diretrizes para sua reformulação no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

A abertura na terça-feira (08), às 10 horas, terá a presença da Coordenadora Geral da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde (CGPAN/MS), Ana Beatriz Vasconcellos, do presidente do Conselho de Saúde (CNS), Francisco Batista Junior e outras autoridades.

"A falta de acesso a uma alimentação adequada e saudável compromete diretamente a saúde. No Brasil, adultos e crianças convivem com o problema da desnutrição, sobrepeso, obesidade e doenças associadas a esse quadro. Muitas vezes os problemas acontecem na mesma família e, sobretudo, nos grupos sociais mais vulneráveis", explicou Ana Beatriz.

"Viabilizar o direito humano à alimentação adequada e saudável é um grande desafio, principalmente quando o alimento é compreendido somente como uma mercadoria e a nutrição algo que se resolve no mercado. Hoje, o forte estimulo ao consumo de alimentos nutricionalmente inadequados responde pela maior parte da carga de doenças e exige na esfera política a adoção de medidas abrangentes e coordenadas capazes de reverter este quadro."

O Seminário será a etapa final de um processo iniciado no começo do ano com os Seminários Estaduais. "Garantir a participação dos estados na construção deste novo ciclo da PNAN será imprescindível para que sua efetivação, como política abrangente do SUS, promova melhores níveis de nutrição e resulte em qualidade de vida para todos", destacou Ana Beatriz.

O evento será promovido pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), por intermédio da Comissão Intersetorial de Alimentação e Nutrição (CIAN), e em parceria com a Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição (CGPAN).

Serviço

Centro de Convenções Israel Pinheiro - SHIS, conjunto A, EPDB, Lago Sul. Altura da QI 29 do Lago Sul e ao lado da Ermida Dom Bosco.

Informações

www.saude.gov.br/nutricao

(61) 2196.0000 ramal 207/ 3306.8004

sábado, 5 de junho de 2010

Aborto: uma questão para ser discutida em toda a área de saúde

A realidade concreta do aborto

por Washington Castilhos*
colaborou Fábio Grotz, em 02-jun-2010
Fonte: http://www.lappis.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1291&sid=1


Além de mostrar que 15% das brasileiras entre 18 e 39 anos já fizeram aborto – o que significa uma em cada sete ou cerca de 5,3 milhões de mulheres – a Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), primeira pesquisa nacional domiciliar sobre o tema, derruba uma série de mitos em torno de quem já interrompeu a gravidez e traz à tona um paradoxo: segundo pesquisa de 2008 do instituto Datafolha, para 68% dos brasileiros (as) a legislação do aborto deve continuar restritiva como está, apesar da realidade das mais de 5 milhões de brasileiras que já abortaram e possivelmente se incluem no grupo dos que reprovam a descriminalização. Talvez para “solucionar” tal paradoxo, o editorial do jornal Folha de São Paulo desta terça-feira (25/5) sugira que o Plebiscito seja o melhor caminho para decidir sobre a ilegalidade do aborto no país. O que não é. O aborto, assim como outros temas em relação aos quais a sociedade nunca vai chegar a um consenso, não pode ser objeto de plebiscito devido ao risco de silenciar as vozes das minorias. Foi assim no caso do referendo que, ao aprovar a Proposição 8, baniu o casamento homossexual no estado da Califórnia, por exemplo.


“Questões de dissenso moral não devem ser colocadas à consulta plebiscitária. Da mesma maneira que somos contra julgar a adoção da pena capital em plebiscito, também nos opomos a decidir a questão da descriminalização do aborto por este meio, uma vez que o Estado sob o império da Justiça não pode nunca deixar de considerar a opinião de uma minoria”, analisa a antropóloga Maria Luiza Heilborn, coordenadora do CLAM.

A pesquisadora Sonia Correa, coordenadora do Observatório de Política e Sexualidade (SPW), concorda que a decisão plebiscitária não deve ser aplicada para assuntos onde não haja consenso e observa que o paradoxo que a Folha de São Paulo tenta “solucionar” através de um Plebiscito existe em qualquer país onde o aborto é ilegal, em função de uma realidade obscurecida pelos termos do debate ideológico. “A realidade do aborto é encoberta pela ‘natureza pecaminosa’ do ato, à qual se sobrepõe o caráter criminoso da prática. As construções religiosas do aborto sempre vão produzir um hiato entre a experiência vivida e a possibilidade de se expressar a favor da legalização. É difícil dizer ‘sou a favor’, já que a prática é tão estigmatizada”, afirma.

Se assumir-se favorável à descriminalização é difícil, mais ainda é revelar a experiência de ter feito um aborto, em razão de uma gravidez considerada impossível de ser assumida naquele momento. Daí o mérito da PNA – fazer com que mais de 5 milhões de mulheres revelassem tal experiência em suas vidas, evidenciando a magnitude do fenômeno no país. Como a prática é crime no Brasil (exceto nos casos de estupro e risco de morte da gestante), alguns cuidados foram tomados para garantir sigilo às entrevistadas. Cada uma preencheu um questionário sozinha e o depositou em uma urna e respondeu a outro, aplicado por uma entrevistadora. A técnica de urna, ao garantir a confidencialidade da declaração do aborto no momento da entrevista, propiciou o maior relato do evento.

Os dois questionários possuíam códigos que permitiam seu pareamento, mas não a identificação das participantes. O questionário da urna confirmava a idade exata e perguntava: “Você já fez aborto?”. Em caso afirmativo, a entrevistada respondia então com que idade havia sido o último aborto, se usou medicamento para fazê-lo e se ficou internada – o estudo mostra que 48% das mulheres que abortaram usaram algum medicamento e que 55% delas ficaram internadas em razão do procedimento.

No total, foram ouvidas 2.002 mulheres entre 18 e 39 anos, das capitais brasileiras e de municípios acima de 5.000 habitantes. Observou-se que a proporção de mulheres que fizeram aborto cresce de acordo com a idade: vai de 6% (dos 18 aos 19 anos) a 22% entre as de 35 a 39 anos.

Número de mulheres que abortam é ainda maior, afirma especialista em saúde pública

O estudo ajuda a desmitificar várias crenças: uma delas é a idéia de que as mulheres que abortam sejam mais jovens e irresponsáveis, ou que a prática seria mais comum entre as mais pobres. Os números mostram que o aborto se distribui de forma equilibrada em todas as classes sociais. Com o estudo, outro mito, reforçado por movimentos religiosos, é que o aborto só seria feito por mulheres que não estão integradas a uma família ou a uma religião. São, na realidade, de união estável e de perfil heterogêneo, inclusive religiosamente.


“Os resultados reiteram a importância do aborto como problema de saúde pública. Deve-se atentar para o fato de que os dados apresentados com estimativa de cinco milhões de mulheres que declaram um aborto representam um patamar mínimo de ocorrência do evento, já que, mesmo com a cuidadosa aplicação da técnica de urna, não se pode afastar que face à delicadeza do tema, muitas possam ter omitido uma gravidez que resultou em um aborto”, acredita a doutora em saúde pública Greice Menezes, pesquisadora do Programa de Estudos em Gênero e Saúde do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (MUSA/ISC/UFBA).

Segundo Greice, ao evidenciar a magnitude do fenômeno no Brasil e a diversidade das mulheres que recorrem a um aborto, a pesquisa explicita a ineficácia da restritiva legislação brasileira atualmente em vigor. “A falência do estado em oferecer às mulheres uma política conseqüente, de modo a enfrentar esta situação, é mais uma vez demonstrada. A criminalização não evita o procedimento, reitera desigualdades sociais, levando uma parcela importante de mulheres a práticas inseguras”, afirma a epidemiologista.

Em relação ao aparente paradoxo de o aborto ser um evento amplamente praticado, mas ao mesmo tempo uma prática altamente condenável, Greice Menezes salienta que o debate muitas vezes é maniqueísta, polarizado, supostamente opondo quem é contra ou a favor da vida.

“A tendência das pessoas (aí incluindo mesmo a mulheres que já abortaram) ao serem perguntadas é emitirem uma posição contrária à descriminalização. A meu ver, isto reflete dois aspectos. O primeiro é que o aborto, tal como já assinalado por pesquisadoras(es) é objeto de forte reprovação no plano geral, mas de grande tolerância no plano particular. De fato, todos somos contra o aborto. O que se discute aqui é a criminalização ou não da sua prática, mas esta posição é relativizada quando as pessoas são obrigadas a se confrontarem com situações concretas da realidade e, nestes casos, o aborto aparece como uma alternativa possível. Ainda muitas pessoas não compreendem – por razões religiosas, morais ou filosóficas pessoais – que se possa ser contrário à realização de um aborto, mesmo em qualquer circunstância, mas se possa ter uma posição favorável à descriminalização da sua prática, assegurando às demais pessoas, que pensam diferente delas, o direito de a ele recorrer se necessário”, observa a pesquisadora.

De acordo com a especialista, outro aspecto do debate reflete a preocupação das pessoas em evitar que o aborto seja banalizado. “E isto é compreensível pela forma com que informações são omitidas ou mesmo deturpadas pelos grupos contrários a uma legislação mais flexível. Estas informações alimentam uma crença equivocada de que ao descriminalizar o procedimento, as mulheres serão estimuladas a abortar e o farão de forma irresponsável. Subjaz a isto uma crença sem fundamento de que as mulheres são irresponsáveis por que têm relações sem se protegerem, abortam e o fazem por razões de conveniência própria. Ora, isto desconhece a heterogeneidade e multiplicidade das situações que encontramos na realidade dessas 5 milhões de mulheres da pesquisa”, analisa.

Greice afirma que a descriminalização não irá estimular o aborto. “Esta não tem sido a experiência dos países onde o aborto foi legalizado, não se constatando neles uma ‘epidemia’ pós-legalização. Acho sim que muitas pessoas precisam reconhecer que a banalização do aborto já existe sim no Brasil e é alimentada pela criminalização”, conclui.

A heterogeneidade das mulheres que abortam

Na análise de Margareth Arilha, diretora-executiva da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR/Cebrap), o que a PNA mostra mais uma vez é como a realidade do aborto segue fazendo parte da vida das mulheres e quão grande é a defasagem entre a vida real e as normativas existentes hoje no Brasil.


Para ela, a diminuição no número de abortamentos na população de mulheres jovens detectada pela pesquisa tem a ver com o incremento nos níveis de educação da população feminina brasileira. ”É sabido que há décadas a educação é fator importante na determinação das escolhas. É evidente que vivemos num contexto de muito mais acesso à informação e à contracepção, diferente do que existia há duas décadas. A geração da época contemporânea é mais privilegiada”, avalia Margareth.


Por outro lado, salienta a pesquisadora, “seguindo esse raciocínio, podíamos supor que a elite brasileira seria favorável à legalização do aborto no país, por ser altamente instruída e por ter poder aquisitivo. Parece que não é. Um exemplo: muita gente acha que a questão da anencefalia já está prevista no código penal brasileiro. Isso mostra que temos que começar a aprofundar esse debate”, diz.


Outro aspecto relevante na PNA, de acordo com a diretora da CCR, é que a pesquisa desmistifica o binarismo na representação da mulher que aborta. “Endiabradas e santas, as que abortam e não abortam. Essa categorização tem que ser eliminada. A pesquisa mostra uma plêiade grande de configurações. Ela é a mesma mulher que trabalha, que tem o filho, que não quer o filho”, revela.


Margareth, que trabalhou durante anos no escritório regional para a América Latina e Caribe do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), no México, lembra que desde a entrada em vigor das reformas de despenalização do aborto no Distrito Federal mexicano, em abril de 2007, o caminho não tem sido fácil, mas o país avançou. “Houve debates legais em cada estado mexicano. Há ainda embates jurídicos. Mas o Estado está contratando médicos para realizar abortamentos como solução para a objeção de consciência de outros médicos. Há uma participação forte do Poder público. Vale também lembrar a relevância do movimento feminista, que vinha incidindo sobre o debate de forma ativa, em uma estratégia de abordar e provocar a sociedade mexicana com essa agenda, o inverso do que está acontecendo no Brasil no campo dos direitos reprodutivos. Aqui temos um país em ascensão com um cenário perverso para as mulheres. Um país cheio de contradições fortes”, assinala.


Contradição do nascituro, ou o que está para nascer

Uma dessas contradições esteve em evidência na semana passada. Ao mesmo tempo em que os dados da PNA eram lançados, a Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF) da Câmara aprovava, na quarta-feira, 19 de maio, um projeto de lei conhecido como Estatuto do Nascituro (o ser concebido, mas ainda não nascido. O conceito inclui, inclusive, embriões produzidos por fertilização in vitro ainda não transferidos para o útero). A contradição reside no fato de o projeto, ao definir que a vida humana começa já na concepção, pode (se virar lei) eliminar hipóteses de aborto permitidas no Código Penal.


A CSSF aprovou o substitutivo apresentado pela deputada Solange Almeida (PMDB-RJ) ao Projeto de Lei 478/07, de autoria dos deputados Luiz Bassuma (PV-BA) e Miguel Martini (PHS-MG). O texto define que a vida humana começa já na concepção, o que a princípio eliminaria a hipótese de aborto em qualquer caso. “A afirmação de ser o nascituro uma pessoa humana só é possível a partir de determinada concepção moral e de determinada crença. No momento em que o projeto de lei impõe uma determinada concepção, que não permite ser compartilhada pelos diversos sujeitos morais e de direitos, ele fere os princípios, direitos e garantias fundamentais que garantem a liberdade de crença e pensamento e a igualdade dos sujeitos”, analisa Kauara Rodrigues, assessora para a área de saúde e direitos sexuais do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea).


Por acordo e pressões entre os deputados da Comissão, a deputada relatora elaborou uma complementação de voto para ressaltar que o texto aprovado não altera o Artigo 128 do Código Penal, que autoriza o aborto praticado por médico em casos de estupro e de risco de morte para a mãe. No entanto, isso não resolve nenhum dos problemas éticos e jurídicos contidos no Projeto de Lei. Não foram esclarecidas as dúvidas e os problemas levantados com relação ao Art. 12 do texto do substitutivo aprovado que prevê “É vedado ao Estado ou a particulares causar dano ao nascituro em razão de ato cometido por qualquer de seus genitores”.


Além disso, o substitutivo aprovado traz “incentivos” para que a mulher vítima de um estupro não interrompa a gestação: garante assistência pré-natal, com acompanhamento psicológico para a mãe; o direito de o bebê ser encaminhado à adoção, caso a mãe concorde. E, identificado o genitor do nascituro ou da criança já nascida, este será responsável por pensão alimentícia e, caso ele não seja identificado, o Estado será responsável pela pensão.


“Isto torna o Estado cúmplice de um crime hediondo e legitimando a violência. Isso sem falar na desconsideração dos efeitos físicos e psicológicos de um estupro na vida de uma mulher. Para justificar a tortura que o projeto submete a mulher quando a obriga a levar adiante a gestação fruto de um estupro durante nove meses, os parlamentares afirmam que ‘A criança não pode pagar pelo erro dos pais’. Mas que erro cometeu uma mulher que foi estuprada? E a mulher que tem uma gravidez com risco de vida? Qual foi seu erro? Entendemos que esse projeto institui a tortura e dá ao estuprador ‘direitos’ de pai, configurando um verdadeiro absurdo”, questiona Kauara.


O projeto agora passará a tramitar na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara (que analisará a adequação orçamentária e financeira, já que prevê o pagamento da já chamada “bolsa estupro” pelo Estado). Depois segue para a Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania (CCJC), que analisará o mérito, a constitucionalidade, juridicidade e técnica legislativa. Somente depois seguirá para o Plenário.


“O estatuto, de alguma forma, consente com o crime de estupro, que continua a existir. É absurdo que se faça uma proposição deste tipo. Não somos animais reprodutores. Somos seres humanos. É um atentado à dignidade humana que se permita uma gravidez e para depois se dar a criança. E um absurdo maior ainda que o Estado financie o resultado desse crime”, complementa a socióloga Maria José Rosado, professora de Sociologia da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e coordenadora da organização Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) no Brasil.


A ponderação dos direitos

Ao nascituro com deficiência o projeto assegura "todos os métodos terapêuticos e profiláticos existentes para reparar ou minimizar sua deficiência, haja ou não expectativa de sobrevida extra-uterina", diz o texto, já visando contemplar os anencéfalos, cuja questão ainda espera ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e já há na sociedade um certo consenso em relação à proposta de descriminalização da interrupção da gravidez em caso de anencefalia.


Para Sonia Correa, nada é por acaso. “A aprovação deste projeto pela CSSF é o primeiro passo de retrocesso. Isto é uma conseqüência do recuo do governo em relação ao 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3). A cada recuo há uma ação proativa. Estamos vivendo isso sistematicamente desde 2005. Foi o recuo do Executivo na hora de proteger a Comissão Tripartite que deu o gancho para a criação da Frente Parlamentar em Defesa da Vida – Contra o Aborto. Cada vez que o governo recua, os adversários avançam”, assinala.


O problema, segundo a coordenadora do SPW, é que o movimento feminista brasileiro não conseguiu estabelecer uma conversação sistemática com a sociedade de maneira ampla, com o objetivo de deixar claro o argumento principal a favor da descriminalização, baseado na ponderação dos direitos.


“Não investimos suficientemente no diálogo com a sociedade sobre o tema, coisa que os conservadores fizeram. Ficamos olhando para as instituições, especialmente para o Legislativo. Houve um certo investimento via mídia, não suficiente no entanto para se contrapor à capilaridade do discurso do aborto em torno do início da vida. O que conseguimos ganhar é o consenso de que a lei não deve retroceder ou ser modificada. Pouco, mas considerando o que se perdeu de terreno nos últimos dez anos, podemos considerar um ganho”, observa Sonia.


A questão é que os grupos conservadores concentram-se agora em tentar fazer retroceder o que foi conquistado, através de estratégias como o projeto do Estatuto do Nascituro. Para Margareth Arilha, além do recrudescimento há também mais punição às mulheres no contexto atual. “Há uma preocupação do Estado associada à questão de segurança nacional. Há uma ideia de limpeza, de eliminar o que é clandestino, como as clinicas de aborto. Um exemplo recente foi o fechamento da clinica de Campo Grande (MS). Pelo menos quatro profissionais de saúde foram processados por crime de formação de quadrilha”, lembra a diretora da CCR.


Para as especialistas entrevistadas aqui é preciso que o movimento de mulheres invista mais no debate em torno da ponderação dos direitos, uma vez que a ideia da autonomia e do “nosso corpo nos pertence” continua sendo insustentável em 2010.


A maternidade deve ser livre e desejada

Maria José Rosado Nunes

Socióloga

A questão do aborto e sua proibição não é uma questão religiosa. É a diferença de classe social que a justifica. A ilegalidade torna o aborto uma questão dura. A mulher do juiz, do empresário, das classes ricas têm condições de fazê-lo de maneira segura. As pobres não têm, são as grandes vítimas. Nesse sentido, a PNA é oportuníssima por mostrar duas coisas: 5 milhões de mulheres não podem ser consideradas criminosas. São pessoas boas, dignas, generosas e que recorrem ao aborto porque é uma solução para elas. A mulher que aborta não é anônima. É a “fulana” minha vizinha, empregada, colega de trabalho, tem rosto, história. A defesa do aborto tem que ser feita em cima desses dados. Se os deputados e congressistas pensassem nas mulheres próximas ou conhecidas que já recorreram ao aborto, eles teriam outras atitudes, porque não iriam querer vê-las na prisão.


Ser mulher já é estar numa escala marginal na sociedade, num lugar de desconfiança. Nas pesquisas sobre ser a favor ou não do aborto, como afirmar que se é a favor numa sociedade que condena a prática? As mulheres, ao afirmarem ser contra, se auto-protegem. É auto-proteção. Não querem ser julgadas por consentir com uma prática condenável. Há uma forte correlação do aborto com crime. É necessário ligar aborto à idéia de solução. Encarar, se for o caso de não desejada, a maternidade como um problema. A maternidade deve ser livre e desejada.


Se, por um lado, o cenário é muito duro para as feministas e os direitos das mulheres, eu não deixo de pensar que é um cenário de reação a um outro cenário positivo de avanços em outros países, como Uruguai, Argentina e México. Temos fatos no mundo que demonstram avanços sobre credos fortes. A sociedade se laiciza, se livra de controles religiosos.


Temos com o governo Lula retrocessos: concordata com o Vaticano; a omissão do aborto no 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Mas também uma declaração pública de um presidente dizendo que o aborto é uma questão de saúde pública. Temos um presidente e ministros de Estado se posicionando contra um arcebispo, no caso da menina violentada que ficou grávida de gêmeos e teve que abortar no ano passado. Então, a palavra deixa de ser sagrada. É preciso atentar para isso como um avanço significativo.

*Matéria originalmente publicada pelo CLAM.

Tabela brasileira de composição de alimentos (TACO)

Consulte a tabela no portal do Ministério da Saúde: http://nutricao.saude.gov.br/taco/taco_consulta.php

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Vereador do Recife comenta sobre a relação dos médicos com a indústria farmacêutica



O impiedoso mercado de medicamentos

Os dados são de pesquisa realizada pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), mas certamente refletem a realidade de todo o país. “Quase metade dos médicos receita o que a fábrica indica. Quatro em cada cinco médicos recebem visita de fabricantes; desses, 48% indicam remédios sugeridos pela indústria”- assinala a manchete e o lead de extensa reportagem publicada pela Folha de S. Paulo sobre o assunto.

Adiante se registra a conclusão do Cremesp de que existe uma "relação contaminada com a indústria farmacêutica e de equipamentos, que ultrapassa os limites éticos".

Aqui não se trata de satanizar os colegas médicos (o autor dessas linhas é um deles, temporariamente afastado das atividades profissionais). Trata-se de sublinhar os malefícios oriundos de toda uma engrenagem da atenção à saúde predominante no país, que hoje rebaixa sensivelmente a qualidade dos atos médicos. No setor público, via de regra pela precariedade das condições de trabalho; no setor privado, que vive à mercê de convênios com os chamados planos de saúde ou de verbas sempre insuficientes provenientes do SUS, pela pressão diária em favor da produtividade.

Clínicas e outros serviços são montados a custa de pesados investimentos, que exigem retorno. É a “medicina argentária” a que se referia o professor Adônis Carvalho em seu discurso de paraninfo da turma de 1972 da Universidade Federal de Pernambuco, com a qual não pude colar grau por ter sido cassado em meus direitos estudantis pelo regime militar.

O profissional médico termina sendo vítima dessa engrenagem. Sobretudo da indústria farmacêutica e de equipamentos. A cada dia novos medicamentos são criados, assim como sofisticados artefatos destinados ao diagnóstico ou à terapia. É preciso estar atualizado, reza o senso comum. Tanto que o assédio começa ainda durante o curso de graduação, segundo assinala a pesquisa do Cremesp. Nada menos que 74% dos médicos declararam ter presenciado ou recebido benefícios durante os seis anos de curso.

Felizmente não são poucos os médicos que rompem com esse círculo vicioso, apostando na relação mais humana com o paciente, tratando cada caso em sua individualidade e lançando mão de procedimentos terapêuticos mais simples e por isso mesmo mais eficazes.

O fato é que os resultados da pesquisa do Cremesp se constituem em grave problema de saúde pública, típico do desenvolvimento capitalista. Karl Marx tinha razão ao afirmar que o capitalismo a tudo transforma em mercadoria – inclusive, no caso, os agravos à saúde das pessoas.

É preciso superar os padrões atuais de funcionamento da sociedade brasileira para que se retomem os fundamentos éticos e humanitários da atenção à saúde.

Luciano Siqueira, médico, vereador em Recife, membro do Comitê Central do PCdoB.
Fonte: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=3241&id_coluna=27

A medicina e a humanização dos seus limites


Os limites da medicina

O novo código de ética médica deu enfoque a algumas questões, dentre elas os cuidados paliativos, que são um conjunto de técnicas médicas voltadas para pacientes com doenças graves, terminais ou incuráveis, com o objetivo de diminuir o sofrimento físico e psicológico. Esses cuidados são um dever ético dos profissionais e um direito do paciente. Nesta hora, o fazer médico – seja municiado dos próprios saberes, seja guarnecido pela lide com a dor e finitude humanas, deve ser direcionado para proporcionar o conforto necessário.
Com isto, o código ressalta alguns aspectos importantes: a postura de negação da morte – nos últimos tempos muito cultivada pelos médicos e também pelos pacientes – e a crença insana que a medicina e a tecnologia podem tudo. Relembra-nos que somos todos finitos e que, por mais arsenais tecnológicos que tenhamos, existe um limite intransponível. Sugere-nos que, diante do inexorável, o melhor a fazer é tornar mais suave o findar da vida. Resgata a possibilidade de morrer sem tubos ou isolado numa UTI, mas sim ao lado de quem se ama, permitindo o enfrentamento desse destino inevitável junto de quem se construiu a vida.
Nestes momentos, o papel do médico e dos familiares é de, conjuntamente, mitigar o sofrimento. Ao médico e aos envolvidos em cuidados de saúde cabe empregar o seu saber para cuidar e acolher. À família cabe um encargo doloroso, pois atravessar uma perda anunciada é dificílimo; entretanto, faz parte da vida humana e seu apoio ao doente é essencial. Mas, para empreitada tão difícil, é essencial a confiança e a compreensão mútuas, além do diálogo contínuo. Na morte, como na vida, humanizar é preciso.

Fonte da foto: http://tiagotenorio.wordpress.com/2009/11/12/ii-monologo-de-garcia/

terça-feira, 1 de junho de 2010

Perda de peso versus incontinência urinária



Perder peso reduz incontinência urinária

A extensa lista de benefícios provocados pela perda de peso acaba de ganhar mais um item. Pesquisa feita pelo National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK) e pelo Office of Research on Women’s Health (ORWH) e publicado no New England Journal of Medicine recrutou 338 mulheres obesas e com sobrepeso que tinham incontinência urinária pelo menos dez vezes por semana. Elas foram submetidas a um programa intensivo de perda de peso, incluindo dieta, exercícios e mudanças comportamentais ou apenas receberam informação sobre dieta e exercícios, mas nenhum treinamento para ajudá-las a mudar hábitos.

Os pesquisadores relatam que as mulheres no programa intensivo de perda de peso perderam cerca de 8% de peso e reduziram a incontinência urinária em 50%. Em contraste, as mulheres que só receberam informação perderam cerca de 1,6% de peso e tiveram 28% menos episódios de incontinência urinária.

Já se sabia que a obesidade é fator de risco para a incontinência urinária, mas até agora não se conheciam os efeitos da perda de peso sobre esse problema. Uma conclusão importante do estudo é a diferença entre os dois grupos na redução da incontinência. Entre as mulheres do programa de perda de peso, 41% alcançaram uma redução clinicamente relevante de pelo menos 70% no número total de episódios de perda de urina por semana, enquanto apenas 22% das mulheres que só receberam informação alcançaram o mesmo nível de redução.

A perda de peso ajuda também a diminuir o risco de desenvolver diabetes tipo 2 e hipertensão arterial, melhora o controle da pressão sanguínea e dos níveis de colesterol, além de ter efeitos sobre o humor e a qualidade de vida.

Fonte: http://projetoinovador.spaceblog.com.br/303837/Perder-peso-reduz-incontinencia-urinaria/

Calorias e gorduras em excesso versus incontinência urinária

Uma alta ingestão de calorias e gorduras saturadas contribui para incontinência urinária

Um novo estudo sugere que mulheres que consomem uma grande quantidade de calorias ou gorduras saturadas podem ter um risco mais alto de incontinência urinária, independentemente de seu peso corporal.

Não está certo por que exatamente o balanço de gorduras na dieta de uma pessoa poderia afetar a incontinência urinária. Porém, isso pode ser devido à inflamação sistêmica crônica, especulam os pesquisadores.

Estudos descobriram que pessoas com altos níveis de determinadas substâncias inflamatórias em sua corrente sanguínea são mais propensas a apresentar sintomas do trato urinário. E acredita-se que dietas com uma razão elevada entre gorduras saturadas e poliinsaturadas pode promover a inflamação.

Além disso, excesso de calorias pode afetar os sintomas urinários porque mais calorias significam uma atividade maior do sistema nervoso – o que poderia aumentar a atividade nos nervos que afetam a bexiga, afirmou a pesquisadora principal, Dra. Nancy N. Maserejian, dos New England Research Institutes em Watertown, Massachusetts, em um e-mail à Reuters Health.

De todas as mulheres do estudo, as 20% com a ingesta calórica mais alta (cerca de 2.400 calorias/dia) foram quase três vezes mais propensas a ter incontinência urinária do que as 20% com a ingesta calórica mais baixa (cerca de 840 calorias/dia), após ajuste para fatores de saúde e do estilo de vida, incluindo peso.

Enquanto isso, mulheres com as razões mais altas entre gorduras saturadas e poliinsaturadas consumiram algo em torno de 3 a 7 vezes mais gordura saturada do que poliinsaturada.

Elas apresentaram uma propensão 2,5 vezes mais alta de sofrer de incontinência urinária, comparadas às mulheres que ingeriram proporções iguais dos dois tipos de gorduras.

Os dados, publicados na edição eletrônica do American Journal of Epidemiology, são oriundos de uma pesquisa sobre a saúde de 2.060 mulheres residentes em Boston, com idades entre 30 e 79 anos, que forneceram informações detalhadas sobre suas dietas e outros hábitos referentes ao estilo de vida.

Em geral, pouco mais de 12% das mulheres apresentavam incontinência urinária moderada a grave, definida como vazamento que ocorre pelo menos uma vez por semana, ou vazamento significativo mensal.

“Esses são resultados muito novos, e nós precisamos de mais pesquisas para verificá-los”, afirmou a Dra. Maserejian.

Por enquanto, ela observou que, em pessoas com sobrepeso, a perda ponderal continua a terapia modificadora do estilo de vida de “primeira linha” para a incontinência.

Mas os resultados atuais sugerem que perder alguns quilos cortando calorias e trocando gorduras saturadas por poliinsaturadas pode ser especificamente efetivo.

Os resultados também sugerem que essas modificações na dieta podem ser efetivas em mulheres com peso normal, acrescentou a Dra. Maserejian.

“Uma das coisas interessantes sobre nossos resultados”, disse ela, “é que a associação (entre calorias e incontinência urinária) foi até mais forte em mulheres magras.

Autora: Amy Norton - http://www.medcenter.com/Medscape/content.aspx?bpid=120&id=26517&__akacao=269755&__akcnt=acd0802f&__akvkey=9d47&utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Geral+115+BR&langtype=1046
Publicado em 05/17/2010: Am J Epidemiol 2010.